O papa Leão XIV e a Inteligência Artificial

Preliminar: Se os teus olhos forem bons…

Ler, reler, rever. Desver? Podemos começar nossa conversa a partir da metáfora do evangelista São Mateus?

Os olhos são a lâmpada da alma. Os olhos são a janela do corpo. Os olhos são à caixa de ressonância da alma.

Antes dos olhos, os cílios. Função: limpa trilhos. É neles e por eles que as imundices e as impudicícias acumuladas nas veredas da vida, vão sendo retidas; proteção e purificação, eis a função.

Sobre proteção e purificação: Robert Francis Prevost, mais conhecido como Papa Leão XIV, publicou (dia 25 de maio de 2026) seu primeiro documento evangélico à frente da Santa Sé, após sua eleição em 08 de maio de 2025. A carta é a encíclica “MAGNIFICA HUMANITAS: SOBRE A SALVAGUARDA DA PESSOA HUMANA NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.”

Após ser eleito pelo Conclave, o papa precisa responder a seguinte questão: Quo nomine vis vocari? (Com que nome você quer ser chamado?). Um ano após ser eleito para presidir o Vaticano, o norte-americano Robert Prevost escolheu o nome Leão XIV, para suceder a linhagem de seu antecessor (Leão XIII), o autor da encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas) em 1891. Tal como seu antecessor, Leão XIV assinou o documento no dia 15 de maio, tornando-o público dias após.

Se em 1891 a igreja se debruçou sobre com a Rerum Novarum para criticar os efeitos da Revolução Industrial sobre o comportamento social, à economia, à cultura e à ascensão comunista, Leão XIV não fez diferente ao eleger temas de fundamental importância para os tempos de hoje: os impactos da (IA) inteligência artificial na sociedade; a deficiência e/ou ausência de regulamentação da IA; a proteção dos trabalhadores frente aos novos tempos de IA; o uso político da IA em guerras e genocídios – humano e cultural. O documento possui 103 laudas, divididos em cinco capítulos, mais introdução e conclusão final.

O sumo Pontífice fez valer o tripé da sociologia da teologia latino-americana (ver, julgar e agir), ao ler, enxergar e nominar o grande adversário da igreja nos dias de hoje: o tecno-fascismo das Big Techs. Ao eleger a humanidade como eixo central do cuidado, ele rejeitou o projeto da Torre de Babel criada e controlada por grandes corporações transnacionais de Inteligência Artificial; Magnifica Humanitas: Magnifica Humanidade. O/a homem/humanidade em primeiro lugar. A tecnologia (citada 18x no singular e 24x no plural) à serviço do homem e não este escravo dela. Nessa toada, precisamos reconhecer a encíclica como um documento antropológico. A dignidade (98x citada no documento) humana em primeiro lugar. Senão, leiamos a introdução do r. documento:

“1. A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Ali onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus (…).”

Quem controla a IA, controla os corpos, mentes e corações. Mais que isso, controla os desejos e as pulsões. Em tempo, o papa Leão XIV resgatou a primazia da igreja como voz profética em meio as sombras e ruínas perpetradas pelo uso bélico, indiscriminado e não-regulamentado da IA em guerras e genocídios em curso mundo afora (Palestina, Ucrânia, Irã).

Afinal, a quem serve quem se serve da I.A? É possível servir a dois senhores, concomitantemente?

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021). Siga-nos no instagram: @drlucaspereira