Ódio?

A escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) entrou num bar e pediu um martini. Dez minutos depois, adentrou à Casa vestindo um terno italiano com gravata azul, o filósofo Norberto Bobbio (1909-2004). Não deu tempo de aquecer o assento, até que chegou religioso dom Helder Câmara (1909-1999), com sua indumentária litúrgica, sorriso na face e uma oratória cativante. Os três à mesa, quem se levantou? – A tristeza.

Rachel havia escrito a crônica “A impossível convivência”, pregando efusivamente contra a tolerância cristã; dizia: “Tolerância é uma virtude para os fracos. Tolerância, na verdade é tibieza.” O encontro fortuito dos três, ocorreu pela força da Providência ou destino – o acaso?. Helder Câmara havia lido a crônica de Rachel; conversou com colegas de sacerdócio sobre o tema; naquele encontro fortuito, frente a frente com a autora, não pecou pela omissão e impugnou as razões da missiva da r. autora; impugnação de cá, réplica acolá; tréplica na sequência. Naquela mesa, os três terçavam lhanamente, sem altercações, a despeito das diferenças de posicionamento político e ideológico.

Rachel era respeitada por seu talento de escritora e sua amizade com Café Filho; por várias vezes tentou persuadi-lo para impedir a posse do presidente Juscelino Kubitschek em 1955. Da amizade com Castelo Branco (chefe do Estado Maior), que após o golpe empresarial-militar, se tornou o primeiro presidente dos 21 anos de período de sombras, de cerceamento e supressão das liberdades políticas. Dom Helder Câmara havia recebido a alcunha de “bispo vermelho” dos amigos de Rachel. Para uns, o que poderia ser motivo de rejeição, ojeriza e estranhamento entre ambos, para ele se tornou uma oportunidade de testemunho público de sua fé militante pela liberdade integral do povo. Ele sempre recordava das palavras registradas na I epístola de Pedro 3:15-16: “Estejam prontos para falar e explicar a qualquer um que perguntar por que vocês adotaram esse estilo de vida, sempre com a maior gentileza.”

Helder Câmara via naquele texto de Rachel de Queiroz uma flamula nietzschiana contra o cristianismo; se preferir, aquilo que Martinho Lutero fez do cristianismo: uma religião de força. Lembrava que antes de sua cruzada no Concílio Vaticano II (1962-1965), que alçou seu nome ao mundo como liderança político e religiosa em favor da libertação dos povos da periferia capitalista, foi simpático aos “camisas verdes” integralistas, ainda que por pouco período de tempo. Essa alcunha o custou caro, melhor dizendo: custou o Nobel da paz.

O regime militar embora não onisciente, era onipresente. Havia sempre um lacaio disposto a ajudá-los. O regime não perdeu tempo e escalou o embaixador Jayme de Souza Gomes, em Oslo, na Noruega, para a missão de impedir Dom Helder Câmara de receber o Nobel da paz. De 1970-1973, o brasileiro era o mais cotado ao prêmio, sendo impedido quatro vezes pelas forças da elite do atraso. Fosse no dia de hoje, teria de direito de pedir música ao Fantástico, após o terceiro gol contra sua pessoa?

Na r. crônica, Rachel fez questão de citar nominalmente os nomes (Plinio Salgado, Luis Carlos Prestes e Getúlio Vargas) que ela destilava ódio militante; ela, enquanto militante trotskista nos anos 30, teria participado de enfrentamentos contra a polícia nas ruas de Fortaleza em 1934; depois de sua curvatura à direita, se tornou apóstola da bem-aventurança nietzschiana: bem-aventurado aquele que não se curva ao pietismo cristão. Dizia: “Tolerância seria bom entre iguais. Mas entre adversários de morte é romantismo superado, é suicídio. (…) Não, não há entendimento possível. Ou são eles, ou somos nós, nada que justifique ilusões de fraternidade.”  

Não sei vocês, mas de minha parte, ódio bom e necessário é o ódio de classe. Odiar o outro por pensar diferente, não acresce em nada, além de fazer mal à saúde. O ódio precisa ser canalizado contra os interesses de classe; ódio classista ao grande Capital rentista-financista; ódio contra os donos do poder que controlam a taxa de juros (Selic) do Brasil: a segunda maior do mundo, descontada a inflação. Fora isso, me filio à pregação da tolerância militante, a qual Norberto Bobbio respondeu em “O futuro da democracia” (autobiografia do século XX), após ser questionado qual o princípio seria mais importante no século 20? Respondeu: “A tolerância”. Repito: Tolerância. E disso o filósofo turinense entendia bem: ele pegou em armas contra o nazifascismo de Mussolini. Lutou pela libertação da Itália.

Lucas Gabriel Pereira

Advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).