Após um dia extenuante de trabalho em seu sítio em Poço Fundo, zona rural do Rio de Janeiro, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim deu início aos primeiros versos da composição “Águas de Março”.
Jobim estava fatigado; sua esposa já em vias de dormitar, ouviu um som diferente e o indagou o que era?; rapidamente papel e caneta às mãos; nascia ali a canção que mais adiante Elis Regina com sua presença de espírito e de palco, se apropriaria do nosso Maestro Soberano. A interprete superou o criador?
Poço Fundo, Rio de Janeiro: Mata Atlântica. Nesse habitat rural acústico ao som dos pássaros, da corrente dos ventos, da vista da serra (Mata Atlântica – Patrimônio Natural do Brasil, § 4º do art. 225 da CRFB/88.), nasceu “Águas de Março “.
Que Tom Jobim historicamente foi o maior nome da música brasileira na cena internacional não se discute; em tempos de poluição sonora com músicas formatadas para alienar as massas, resgatar o maestro Tom Jobim é um ato de higiene espiritual; de sanidade mental, não? Aliás, não era Nietsche que dizia que “a vida sem música seria um erro?” Digo música, não essa manufatura ideológica que a Rede Globo transforma em telenovelas de sucesso, alienando e subtraindo das massas um passaporte de esperança para sair desse vale de lágrimas brasileiro.
A alma jobiniana captou a tensão entre as classes sociais do povo brasileiro e amoldou-a em versos na dialética de “Águas de Março”, in verbis: “É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco, é um pouco sozinho / É um caco de vidro, é a vida, é o Sol / É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol É peroba do campo, é o nó da madeira / Caingá, candeia, é o Matita Pereira / É madeira de vento, tombo da ribanceira / (…) É o projeto da casa, é o corpo na cama / É o carro enguiçado, é a lama, é a lama / É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã / É um resto de mato, na luz da manhã”.
Enquanto hoje as composições ganham o campeonato de looping interminável de ruído sonoro nessa fabricação fordista de pseudo artistas; canções fetichizando e vulgarizando às mulheres; ode ao consumo de álcool e à glamourização do crime organizado, Tom Jobim fez o nome do Brasil ser conhecido e respeitado – internacionalmente.
Em tempos de aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento brasileiro ante a aprovação do acordo Mercosul-EU, que lançará uma pá de cal a todo projeto desenvolvimentista nacional, selando de vez o Brasil como latifúndio agroexportador, Jobim não era comodities; Jobim era fruto do Brasil que deu certo: o homem que transformou nosso Patrimônio Natural, Cultural etc em produto para exportação pronto-e-acabado em formato de canções.
Em tempos que o ruído sonoro – da política como “espetáculo” (Guy Debord), das fazendas de playlist musical em app de streaming para fabricação de pseudo celebridades; de desinformação e propaganda ideológica do capitalismo ianque-estadunidense no youtube para se locupletar do direito ao descanso, do lazer das massas, resgatar Jobim é um ato de rebeldia contracultural. Não por acaso, o poeta Carlos Drummond captou esse zeitgeist (estes são os tempos) resumindo-o numa crônica: “Ou a quase todos, pois seria vão esperar que os amantes do barulho erguido à categoria de música estimassem o antibarulho, o refinamento do som organizado em fonte de prazer estético e explicação do homem por si mesmo.”
Bem-aventurados os ouvintes de Tom Jobim, pois estes herdarão o reino dos céus.

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021); contato: e-mail: advrplucaspereira@gmail.com

