Dias atrás recordei–me de um programa de televisão que descobri na adolescência quando morava
no “Sítio Bom Retiro” – distrito de Cruz das Posses. Nasci e morei até os sete anos em Ribeirão Preto; depois mudamos para esse sítio, onde moramos dez anos, até retornar à Ribeirão. Naquela época o sinal de televisão não era como hoje. A qualquer ameaça de temporal era preciso virar – de um lado a outro – a antena afixada numa vara de bambu à procura de sinal para assistir o “Provocações” de Antônio Abujamra (1932-2015) – TV Cultura. Nessa época eu já gostava do “Café Filosófico”, também da Cultura – cujo o sinal de transmissão era tíbio. Já quanto ao peso dos punhos do boxeador Mike Tyson, não era nada tíbio. Foi nessa época que descobri que as lutas de Mike Tyson prendiam os fãs do estadunidense madrugada adentro defronte o televisor, aguardando a voz desfibriladora do Galvão Bueno narrar mais um nocaute.
Assisti algumas lutas de Tyson. Embora não fosse fã do boxeador, me chamava atenção o ritmo artístico de suas pernas que o permitia se esquivar dos golpes adversários, que poderia(m) levá-lo à
lona. O peso dos punhos e a leveza/agilidade nas pernas – eis o paradoxo!
Do boxe à esgrima, luta disputada com a espada em riste à procura do adversário para pontuar, me chamava atenção que ambos esportes sem conexão aparente, se conectavam pela leveza das pernas. Leveza, elasticidade nas pernas e no quadril, eram atributos imprescindíveis para ambos esportes. Recordei-me – e quem quiser pode procurar no youtube – que dentre os dons que destacavam Abujamra, um deles era encantoar seus convidados com um golpe de esgrima ou de pugilista peso-pesado
quando este os interrogava com a inquietante interrogação thekhoviana: “O que é a vida?” Raramente alguém conseguia convencê-lo com uma reposta à altura. Também não era esse o objetivo. O que é a vida? Qual o sentido da vida? John Lennon – dos Beatles – dizia que “a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo planos.” São muitas ocupações!
O Sistema foi forjado para drenar nosso tempo, nossas vidas e desejos. Gaiva nosso espírito! O que fazer, senão lutar? Resistir ou se render? Por que (não) lutar?
A vida é uma aconteci-ação diuturna em que nos esgrimamos de um e outro o tempo todo para não ser tragado. Nos esgrimamos até da música tocada no restaurante – ou, como no meu caso é costumeiro, da música no salão da barbearia. Que dizer do pensionista do INSS que esgrima orçamento para sobreviver? Viver é esgrimar – os olhos da poluição audiovisual – em busca de um habitat mais
saudável. Há dias em que nosso ecossistema sonoro é regido por Leonard Berstein no “Adagietto” – de Gustav Mahler; noutros escolhemos o movimento intenso de Herbert Von Karajan regendo a 5º
sinfonia de Beethoven. Nem sempre podemos escolher a trilha sonora, mas sempre podemos escolher entre resignar ou indignar – dizia Darcy Ribeiro. A frente das trincheiras – por uma causa justa,
coletiva – a luta nos solidariza, humaniza; molda nosso espírito. O rev. Martin Luther King dizia: “Quem ainda não descobriu uma boa razão para morrer, não descobriu uma razão para viver”.
Lutar implica escolher por qual causa – você e eu, nós – desejamos padecer.

Lucas Gabriel Pereira
Advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão);


