A semana foi marcada por intensos debates nas redes sociais sobre o atendimento especial em sala de aula para alunos portadores do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em Valinhos. A denúncia feita por uma mãe atípica nas redes sociais, no último fim de semana, escancarou o que muitas famílias de crianças com deficiência classificam como uma crise silenciosa na educação inclusiva da rede municipal.
A publicação gerou uma enxurrada de relatos e passou a ocupar os comentários em páginas do Facebook e do Instagram, apontando para problemas no atendimento a alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras deficiências.
Entre os principais pontos levantados estão a falta de cuidadores suficientes, a divisão de um mesmo profissional entre várias crianças, a desvalorização salarial, cortes em serviços essenciais e a ausência de uma política estruturada de inclusão.
“Meu filho tem autismo nível 2 de suporte e tinha uma estagiária com ele em 2025. Este ano ela desistiu porque pagam muito pouco. Agora meu filho precisa dividir a cuidadora com outra criança. É uma vergonha. Valinhos é uma cidade rica e poderia pagar um valor justo para que os profissionais não desistam”, relatou uma mãe no Instagram.
O relato do final de semana foi feito por uma outra mãe no grupo Pé de Figo no Facebook. Ela descreve a dificuldade enfrentada pela família para manter seus dois filhos, ambos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) níveis 2 e 3 de suporte, matriculados em escola municipal com o acompanhamento adequado garantido por lei.
Segundo a mãe, apesar de toda a documentação médica apresentada desde 2023 — incluindo laudos, relatórios terapêuticos e pedidos formais de profissionais especializados —, a Prefeitura de Valinhos não garantiu cuidadora individual para as crianças, como determina a legislação nos casos de comprovada necessidade de apoio para locomoção, alimentação, higiene e comunicação.
“Estou desde 2023 aceitando o mínimo. Quem está sofrendo sou eu e meus filhos. Meu filho foi negligenciado o ano todo”, relatou a mãe no desabafo, que rapidamente passou a receber dezenas de comentários de apoio de outras famílias em situação semelhante.
De acordo com o relato, a situação se agravou às vésperas do início do ano letivo de 2025. A mãe afirma ter recebido a confirmação, por telefone, de que cada criança teria uma cuidadora individual. No entanto, durante a reunião escolar, foi informada de que apenas duas cuidadoras foram contratadas para atender entre sete e oito crianças com deficiência, distribuídas em salas diferentes.
“Como duas pessoas cuidam de sete ou oito crianças especiais ao mesmo tempo? Isso não é inclusão, é abandono”, escreveu.
Outros comentários
Outros comentários reforçam que a situação não é pontual, mas generalizada em toda a rede. “Não é só ela, é geral, todos os alunos de inclusão. Estão chamando mães individualmente para reuniões, em vez de resolver o problema como um todo”, escreveu outra internauta.
A sobrecarga de profissionais também aparece com frequência nos depoimentos. Segundo os relatos, há escolas com apenas três cuidadoras para atender toda a demanda de alunos com deficiência, que acabam sendo revezadas entre diferentes salas. “É o mínimo por lei ter uma auxiliar para cada criança. As aulas começaram e já tem cuidadora fazendo ‘rodízio’ de sala em sala. Isso sobrecarrega tanto as cuidadoras quanto as professoras”, destacou outro comentário.
Alguns pais apontam, inclusive, possível inconstitucionalidade nas medidas adotadas. “É inconstitucional, mas eles acham que estão fazendo muito”, escreveu uma internauta.
Diante da falta de respostas, famílias já começam a discutir caminhos legais. Há orientações para que os responsáveis procurem o Ministério Público. “Essa mãe (que fez a denúncia no final de semana) precisa levar os documentos ao Ministério Público. Lá eles avaliam e chamam para uma resolução. Em Campinas, fica na Cidade Judiciária, perto da CPFL”, comentou uma usuária.
O impacto emocional e financeiro sobre as famílias também aparece com força nos relatos. “Pais atípicos deveriam ter mais atenção. Fico imaginando se fossem dois filhos autistas. Aluguel, energia, terapias a semana inteira, rotina pesada em casa e ainda ter que brigar por um direito que já é garantido por lei. Desculpa, mas é uma sacanagem”, desabafou outra mãe.
Reunião
Depois de protestar durante a sessão da Câmara, na terça-feira (10), um grupo de famílias conseguiu sensibilizar os vereadores, que intermediaram o agendamento de uma reunião com o secretário André Amaral. Em nota enviada para a reportagem, a assessoria do Legislativo informou que o encontro seria às 16h de quinta-feira (12).
Na sexta-feira (13), a assessoria da Câmara informou que não iria se manifestar sobre a reunião. A reportagem solicitou também posicionamento para a assessoria do presidente, Israel Scupenaro, mas não houve retorno. Solicitou ainda posicionamento ao vereador Popó, líder do governo e que teria participado do encontro, mas também ainda não teve retorno. Se isso acontecer, o conteúdo será atualizado.
A reportagem conversou com a advogada Tainã Dias, que representa famílias que pedem que a Prefeitura atenda às necessidades de seus filhos em sala de aula. Ela não esteve na reunião, mas falou com outras mães e com um vereador que esteve presente. “Em resumo, não houve nenhum avanço prático ou resultado concreto. A Prefeitura informou que vai analisar caso a caso”, disse.
“Nós temos casos como de uma família que pediu no dia 4 de fevereiro o cuidado especial com uma criança. Porém, hoje é dia 13 e não houve nenhuma resposta. Essa justificativa de analisar caso a caso já podia estar sendo feita com os pedidos de suporte que estão protocolados na Secretaria de Educação à espera de solução”, disse.




