Manhã de quarta–feira sob névoa chuvosa. Era cinco e meia da manhã e já estávamos de pé; dentro de instantes, o jejum seria finalizado com um café sem açúcar. Da janela à vista do verde oliva na “serra dos
cocais” começava ganhar espaço entre as fagulhas da névoa se dissipando no horizonte. É cedo. Ainda se ouve o despertar das galinhas da chácara ao lado. Dentro de alguns instantes o motor dos carros começa a roncar decibéis acima das moedas que tilintavam ao serem depositadas na sacola de Johann Tetzel (ano 1517), ato que despertou a ira do monge agostiniano e reformador Martinho Lutero, contra o
Papa Leão X – o florentino, Giovanni di Lorenzo de’ Medici (1475–1521).
Tetzel era um dominicano de boa oratória. Fosse nos tempos mais recente, ele poderia ser contratado pela presidente Dilma para vender – claro, a preço justo para fomentar o desenvolvimento e à economia – o vento que a presidente queria estocar – em um discurso proferido na ONU em 2015. Pausa para um café. Aproveito para me atualizar das conversas num grupo de esquerdistas no WhatsApp: de um lado, uma turma se levanta contra o espectro de Bolsonaro representado por seu filho no retrovisor das
pesquisas eleitorais (outubro de 2026), com chances reais de minar o sonho lulopetistas de um Lula 4.0: “o amor vencerá” – meme que está bombando no grupo. Doutro lado, uma turma de céticos cansados da propaganda petista que sempre acena à esquerda para depois botar ovos à direita – #BrizolaVive.
É, naqueles tempos de Tetzel ainda era possível vender eternidade: quando as moedas caiam e ressoavam no cofre, a alma saia ou escapava do Purgatório! (Johann Tetzel). Fosse nos tempos de
hoje, Tetzel seria ator mirim diante do bispo Edir Macedo e do pastor Silas Malafia. Teria de pegar a senha para se matricular no curso de “vendedor de sonhos”. Os cursinhos de preparação estampam a foto do banqueiro Daniel Vorcaro e do pastor André Valadão, como discípulos de sucesso no intensivo com Malafaia e Macedo.
Vai dar match, não? Com os lucros das pregações do arauto do Vaticano, construiu-se a Basílica de São
Pedro. A igreja venceu, mas não levou. Se dividiu com a Reforma protestante. Divisão que provocou um cisma no poder político e nas finanças da igreja católica. Abriu-se uma fenda.
No Brasil dos tempos modernos, basta avizinhar uma eleição que os arautos da fé começam dar as caras para transformar adversários em inimigo; ambos os lados se especializaram em plantar e
disseminar ódio e fake news:
direita e esquerda. Estão carcomidos de ideias e projetos para a nação; só pensam no poder pelo poder. E quem se opõe a essa máquina político-partidário que se tornou esses grandes partidos, perdem o lote no céu e terão de enfrentar o fogo inferno. Isso me faz resgatar o alerta do poeta Manoel de Barros:
“Eternidade é uma palavra muito encostada em Deus, e pouco encostada nos homens…Sou ínfimo para entende-la.” Uma fenda corta o res do chão.

Lucas Gabriel Pereira
advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (Riberirão Preto)



