Orelha: o cão fenômeno

Zeitgeist (estes são os tempos.). Às vésperas da Copa do Mundo o Brasil descobriu seu novo talento: Orelha, o cão fenômeno. – E você achando que Breno Bidon (Corinthians) e o menino Hendrik (Lyon) seriam convocados? – Não! O novo talento é “Orelha”! Seu treinador na base dizia que ele era um ponta-esquerda que cortava para dentro e chutava pro gol; que tinha bom drible; Carlo Ancelotti atento o convocou para a seleção brasileira. Saiu da escalação da seleção brasileira contra a seleção de Marrocos e lá está “Orelha”. Orelha é o líder sensação do momento; nas playlists de spostfy e deezer só dá #OrelhaNeles. A torcida deposita em Orelha as esperanças do hexa!

Iniciamos o mês de fevereiro de 2026 com dezenas de milhares de brasileiros indo às ruas em protestos contra a morte do Cão Orelha, vítima de violência e maus tratos no estado de Santa Catarina – em janeiro p.p.

De cortes ao programa de cotas ao ensino superior ao aumento do número de meretrizes de luxo, conhecidas como Sugar Baby ou Sugar Daddy, passando pela violência contra o Cão Orelha, o noticiário de Santa Catarina vem ganhando espaço na cena nacional. O portal ND+ em 14.01.p.p, noticiou que há mais 154 mil Sugar Daddy no r. estado recebendo mais de 80 mil reais mensal. Se continuar nesse ritmo o Nobel é nosso, não?

Enquanto burocráticos e políticos divergem sobre como diversificar a economia dos estados da federação (26 estados + 1 Distrito Federal), Santa Catarina vem ganhando destaque: de violência contra animais à acompanhantes de luxo, dentre outros.

Vencemos! Precisamos reconhecer nossa bancarrota civilizatória.

De estado fornecedor de pescados e frutos do mar, para estado promotor das sugar baby. E isso tudo no estado que realiza um dos maiores congressos evangélicos da denominação das Assembleia de Deus, na cidade de Camboriú.

A violência no Brasil é endêmica. Da violência de gênero, sexual, patrimonial-financeira contra as mulheres, aos maus-tratos contra animais e violência religiosa; da violência do crime organizado, das polícias e das milicias; da violência de classe promovida pelas sucessivas antirreformas liberais (reformas da Previdência e do Trabalho implantadas pelo consórcio petucano), a violência grassa o tecido social brasileiro. A essa altura do campeonato seria demais perguntar que evangelho é esse que as igrejas no Brasil vêm pregando ante esse cenário de desesperança?

“É que o sagrado se tornou hilário”, cantou o poeta e músico cristão Marcos Almeida (sagrado). Não só hilário, se instrumentalizou para se tornar mecanismo de poder nas mãos de pastores e líderes religiosos que mercadejam-no em troca de poder/dinheiro/status/likes; o Sagrado se tornou fintech e abocanhou a dignidade dos aposentados, conforme as notícias de participação de megas igrejas evangélicas no escândalo investigado na CPI do INSS; o Sagrado se tornou fast food; o Sagrado castrou a iracundia santa dos cristãos contra as mazelas e injustiças socio estruturais.

Esse Sagrado é capaz de mobilizar dezenas de milhares de cidadãos contra a violência dispendida contra o Cão Orelha; de mobilizar legião de fãs na caminhada de MG à Brasília contra a condenação do ex inquilino do Planalto Central, tal como mobilizou périplos da seita lulopetista no entorno da sede da Polícia Federal de Curitiba, onde o presidente esteva preso. Esses são os “tempos líquidos” que Zygmunt Bauman alertava em sua sociologia. Enquanto isso, a escala 6×2 e a revogação da antirreforma trabalhista aguardam sua vez na fila de prioridades. Enquanto isso, o Brasil continua tendo o 2º pior salário mínimo da América Latina; vencemos a Nicarágua e perdemos para Venezuela e Argentina.

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).