O sentido das coisas

Dar nome às coisas e/ou às pessoas: “O que é o significado de uma palavra?” (Wittgenstein, Ludwig. O livro azul. 1ª Ed. – São Paulo: Fósforo, 2025, p. 25).

Rubem Alves contra à gramática contemporânea. Recordei-me de Rubem Alves ao iniciar o esboço deste texto. É que certa vez o r. autor disse que um editor de suas obras havia devolvido um texto seu para que fosse substituído “estória” – com e mesmo, estimado leitor! – por “história” com h. Começou aí oposição? Quem foi que disse que não havia posição fora do tatame político-eleitoral? A despeito das razões de cada lado nesse embate, fato é que Rubem manteve a ideia inicial insistindo na separação de e do h. A quem interessa esse autoritarismo linguístico dos contemporâneos?

Estória: o/a filho/a da Beatriz se chamará “Abel”. – disse a esposa. O marido que não entendeu nada, indagou-a: “Abel? Por que Abel? Acaso seria homenagem ao técnico do Palmeiras?” – “Não; segundo ela é porque a homilia paroquial da última dominga foi sobre a oferta de Abel; que Deus havia considerado justo sua oferta, rejeitando a produção agrícola ofertada por Caim”; – Entendi agora” – respondeu.

História: no enredo do livro do Gênesis o Eterno se agradou da oferta de Abel e rejeitou a de Caim; este enrijeceu o coração se alimentando de vingança – que culminaria na morte de seu irmão (Gn. 4:3 e ss. – da Bíblia). Talvez essa história bíblica tenha algo para nos ensinar nos dias de hoje.

Por que devemos chamar “pandemia” (Covid-19) de pandemia e não de “gripezinha?” Por que a banalização do vocábulo “fascismo” gastou o uso da palavra, esvaindo sua densidade semântica, sociológica, filosófica? Por que o “genocídio” na Faixa de Gaza é genocídio e não uma guerra?

A etimologia palavra “Abel” ensina que Abel significa “sopro”, “respiração”, “fragilidade”. É a fragilidade da vida pedindo voz, licença; é a recusa da aceitação dos novos autoritarismos – políticos, linguísticos, dos planos econômicos dos burocratas; essa recusa de aceitar a fragilidade da vida, tende a descambar em ode à novos autoritarismos. É tudo vaidade, diria o Eclesiastes. Vaidade de vaidade!

Contra a força da etimologia das palavras e das coisas, surgiu a linguagem da força; contra a força do direito, surgiu o direito à força e da força, e se você e eu, nós, nos recusarmos aceitar essa nova cartilha, seremos todos cancelados. Nesse caso, na lápide constaria: “Aqui jaz mais um cancelado?”.

Lucas Gabriel Pereira,

advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).