Enxergar é diferente de ver. Assim como escutar é diferente de ouvir. Neste texto, abordaremos a diferença entre ‘ver’ e ‘enxergar.’
Enquanto ‘enxergar’ é um processo biológico, ‘ver’ é cognitivo; é profundo. Demanda interpretação – de objetos, de tempo e espaço. Tomemos como exemplo a pedagogia das imagens na frase Horace Lecoq de Boisbaurdran: “O olho contempla o objeto, a memória guarda sua imagem” (Boisbaurdran, 2021, p. 31). Contemplar para guardar? Guardar, vigiar, proteger/zelar.
Iconografia vigilante na poesia de Antonio Cícero: “Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela”. Ser acordado por ela. Ser tocado por ela. Ser incomodado por ela. Ser transformado por ela!
Para a igreja Católica, as imagens não são apenas estéticas; são pedagógicas; a iconografia serve à liturgia eucarística. A poética iconográfica dos templos – que dizer da iconografia da Basílica de São Marcos, em Veneza, na Itália, com mais de 4 mil m² de mosaicos? – auxiliam na compreensão/recepção da homilia pelos fiéis.
Para Antonio Cícero, a ética do “ver” resulta num devir-em-moviment-ação; a imagem desloca o eixo gravitacional do sujeito – de passivo para ativo. A imagem é ampliada, recortada, destacada, resgatada; vira objeto de exposição em museus; a imagem capta a pluma do instante; afixa-se na memória do contemplador que por ela foi tocado, transformado – no dizer da poetisa lusitana Matilde Campilho: “a arte pode não salvar o mundo; mas salva o minuto.” A imagem da mãe segurando o bebê no colo, logo após o parto. A imagem da catarse coletiva dos fãs após assistir Ayrton Senna de volta ao pódio na F1.
A estética da fome do cinema de Glauber Rocha, retrata a alma resiliente do sertão – “Deus e o diabo na terra do sol” (1964). A geografia da fome no sertão é o retrato do sucesso das promessas liberais; não é acaso, é projeto! É a estética da política aporofóbica do liberalismo, após tarjar o nacionalismo – getulista/janguista/brizolista – de retrógrado e autoritário. O sertão é a pobreza de espírito das elites de cócoras para todo e qualquer projeto de autonomia e soberania nacional. De todas as pobrezas, a pobreza de espírito é aquela que enrijece e cauteriza as mentes das massas contra a utopia.
As imagens são o testemunho do tempo – arquitetônico, artístico, cultural, político, do cinema novo (Brasil), do neorrealismo italiano; do cinema de Ingmar Bergman na viagem de Isak Borg (idoso de 78 anos) pelos bosques verdes em “Morango Silvestres”; película esta que percorre os labirintos da alma, da solidão do idoso; doutro lado, as imagens também são o destestemunho na forma da decadência moral do ocidente no ataque nuclear à Nagasaki e Hiroshima, em 1945. Que dizer das imagens de(a) Gaza/Palestina?

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).


