Ignorância

“A ignorância de qualquer ser humano me diminui, e a habilitação de todo ser humano é um ganho comum de horizontes” (Raymond Willians, 1921-1988).

O alfabeto brasileiro possui 26 (vinte e seis) letras, sendo a letra “i”, a nona. I de ignorância, do latim ignorantia. É formada da junção da oposição in (não), com gnarus (sabedor). Ciente disso, proponho-vos um trato: doravante, não façam como o Chaves que vivia chamando o Quico de “burro”, combinados?
Também não vamos perquirir o uso do “burro” como instrumento de transporte nos tempos pretéritos, evitando-se assim despertar a ira da “patrulha canina” – dos ativistas da causa animal, ávidos por um like para recortar e lacrar nas redes socias, enquanto acumulam seguidores para depois vender e/ou dispor seus perfis para candidatos políticos, quando não, anúncios publicitários e/ou tigrinhos da “sorte”.
A geração pós-verdade criou um perfil comportamental societário em que tudo é relativizado. A crítica, outrora aliada, se tornou inimiga a ser repelida com virulência. Criamos uma geração de “hiper sensibilizados”, como bem observou o imortal José Roberto de Castro Neves, no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). A ignorância virou escudo, aba de proteção de uma geração ignara, educada para o consumismo, subserviente aos interesses do patronato.
Não só escudo, virou método, conforme demonstrado no escopo do projeto da contrarreforma do ensino médio – iniciado pelo Projeto de Lei (PL) 6840 de 2013, de autoria do deputado federal Reginaldo Lopes (PT/MG), e, posteriormente convertido em lei, através da sagacidade do presidente Michel Temer, ao encampar a ideia na Medida Provisória (MP) 746 de 2016. O que não faltava ao presidente vampiro, forjado nas lides constitucionalistas, era expertise para trilhar pelos atalhos do processo legislativo, visando atender os desideratos do grande capital.
Na época o debate era: precisamos modernizar o ensino público. E não é que conseguiram? A depender dos números apresentados na 6º Edição da “Retratos da Leitura no Brasil”, pesquisa nacional dos hábitos de leitura do brasileiro, em 2024, o país perdeu 6 milhões e 700 mil leitores nos últimos quatro anos – da pesquisa; queda aparece em todas as classes, faixas etárias e escolaridade. E agora, quem poderá nos defender? O que esperar de um país que não lê? O contrassenso é que essa geração, é a mesma dos hiper conectadas. Esfinge temerária essa modernização, não?
Convenhamos: a classe política brasileira tem o dom de Midas – ao reverso -, toda vez que pretendem resolver um problema, terminam criando outro ainda maior. A ignorância virou método, e também instrumento de vingança.
No princípio reinava as trevas / e as trevas habitavam a face da escuridão / e Deus disse: “haja luz”! E a luz dissipou a face da escuridão.
Deus criou o mundo à sua imagem e semelhança. O homem para se vingar criou um deus à sua imagem e semelhança. O resultado é esse latifúndio de ignorância.

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).