Escrevo-vos na virada de março para abril de 2026. No próximo dia 04 de abril finda-se o prazo para os postulantes às eleições vindouras regularizem o domicilio eleitoral na circunscrição que pretendem concorrer. Com o avizinhamento do sufrágio presidencial designado para 04 de outubro, ressurge na grande imprensa, nos blogs de política e de movimentos sociais, o vetusto verbete “polarização”. Teríamos um ambiente de “polarização” nas eleições presidenciais do Brasil?
Em política, dir-se-á que polariz-ação é a divisão da sociedade em dois grupos antagônicos. Ou seja, dois projetos políticos diferentes. Seria esse o caso do Brasil? Estaria o Brasil dividido entre petistas versus bolsonaristas, estes, por sua vez, sucessores do espólio tucano de FHC, Mário Covas e José Serra?
O que te remete à memória quando ouve a expressão “polarização”? Qual a sensação? Qual a imagem?
A imagem a qual acorro é “O Grito”, de Edvard Munch. Trata-se de uma obra pintada em 1893, pelo referido pintor norueguês. Nessa imagem, há uma profusão de tons vermelho, amarelo e laranja, dentre outras cores. “O Grito” de desespero apocalíptico de Munch, em certa medida, remete-nos à síntese “cores de Almodóvar”, de Adriana Calcanhoto. Munch e Pedro Almodóvar usam e abusam do vermelho.
Por que dizer polariz-ação, se ambos os candidatos que lideram a corrida eleitoral brasileira prestam tributo ao mesmo deus-mercado? Pregam o mesmo projeto político: privatizações, concessões, terceirizações; precarização do Ensino Médio; precarização da saúde; defendem o mesmo projeto de economia política voltada ao rentismo; são defensores intransigente da taxa pornográfica da SELIC do Banco Central, que servem de instrumento de transferência de riqueza dos pobres para as classes dominantes; defendem o tripé macroeconômico do presidente FHC etc. Se ambos defendem o mesmo projeto da grande burguesia, qual a polarização, senão, semiótica.
Iguais, porém diferentes. Diferentes nos costumes. Diferentes na diplomacia da boa vizinhança. Algo mais, você elencaria? Antes que o porteiro do paço forense invada nossa prosa e tome o microfone para falar dos “milicianos”, vamos encerrar por aqui.Antes, porém, uma voz ecoa no ar: – “óbvio ululante” -, diz ela. É isso. Talvez nossa esperança esteja enfiada em um quarto de Irajá – como diria Nelson Rodrigues in “Amigos, eis que…”. Com o tempo, porém, o Brasil começou a ser invadido por idiotas da objetividade. A política se tornou projeto de poder para uns; o ópio subiu à cabeça de profetas neopentecostais e quejandos. E agora?

Lucas Gabriel Pereira
Advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).



