Escrevo este texto no dia 13 de maio de 2026. Um dia após a data (12) de comemoração internacional da enfermagem. Hoje, treze; o 13 do eterno velho Mário Jorge Lobo Zagallo, ex-técnico da seleção canarinha de 70, campeã no México.
Ah! Antes que algum incauto levante a bandeira, alerto: este texto não é nenhum jogo semiótico em favor daquele partido político cuja a sigla é 13. Estamos combinados?
Zagallo era o técnico da seleção que comandou a trinca de ferro do ataque (Jairzinho, Tostão e Pelé) da seleção tri campeã do mundo no México. Eram tempos em que a amarelinha era temida, respeitada. Também era tempos sombrio da ditadura militar-empresarial no Brasil; sob a presidência de Médici, o “chicote estalava” – para usarmos uma expressão popular.
E, falando em “temor e respeito”, substantivos praticamente em desuso nos tempos obtusos que vivemos no Brasil e no mundo, convém falarmos sobre o papel e a função imprescindível da classe da enfermagem; para tanto, resgato o registro do autor bíblico: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lamentações, 3:21).
No clássico quadro “Aula de Anatomia”, pintado em 1632, pelo holandês, Rembrandt, nos deparamos com oito alunos acompanhando a aula de anatomia do dr. Nicoales Tulp, enquanto este dissecava a mão canhota de Aris Kindt, condenado à morte por assalto à mão armada. Remdbrant adota a técnica do claro-escuro; luz e sombra, no ambiente de trabalho; vida e morte; morte e vida. Ao seu lado, vários alunos; nenhum enfermeiro ou técnico enfermagem o auxilia naquele momento; também não havia preocupação alguma com medidas sanitárias, como se percebe da imagem. Esta última é uma conquista tardia a qual devemos à enfermagem e aos sanitaristas.
Rosana Aparecida Urbano, 57 anos, empregada doméstica, faleceu no dia 12 de março de 2020. Ela foi primeira vítima da Covid-19 no Brasil. Em memória das vítimas da Covid-19, o Brasil acaba de promulgar a Lei nº 15.406, de 11.5.2026 – “Institui o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19”, a ser comemorado todo dia 12 de março.
Ao falar do dia da enfermagem, precisei resgatar à memória das vítimas da Covid-19, que no Brasil, fez mais de 700 mil vítimas. Muitas delas, para não dizer a maioria, decorreu por decisão de política negacionista, lideradas pelo ex alcaide inquilino-mor do Planalto Central. Suas palavras, gestos e símbolos no curso trágico da pandemia Covid-19, acelerou à morte de centenas de milhares de brasileiros que tiveram suas vidas encurtadas; o ceifador não poupou ninguém.
Neste ano de 2026, a enfermagem por meio do COREN (Conselho Regional de Enfermagem), elegeu as expressões “técnica, ética e política”, como eixo-central de suas ações; e, para o aperfeiçoamento da democracia e da república brasileira, é imprescindível que esse debate saia do circulo de classe e ganhe à sociedade e adentre os parlamentos – de todos os entes e níveis da federação.
A pandemia Covid-19 nos mostrou que a técnica, embora seja uma arte à serviço da proteção e do cuidado humano, pode se tornar refém de populistas eivados de sangue e ódio negacionista; que a ética quando entra em concordata, se torna refém do lucro e da ganância das grandes operados de saúde, que visam o lucro acima de tudo e todos; por fim, a política, a arte de governar a polis criada pelos atenienses, possui o mesmo radical que forma a expressão “policia”. Pela ordem: polis, política e polícia. Percebeu que esta última só entra em cena quando as duas anteriores falham?
Em tempo de políticas de austeridade fiscal, de terceirizações e precarizações dos serviços públicos, de desvalorização do servidor público, é preciso que a sociedade olhe para à enfermagem e reconheça a essência e a indispensabilidade da r. classe; que se engaje por ela; essa luta é de todos.
Valorizar os profissionais da saúde não é apenas uma questão de direito, é imperativo ético. Que Brasil queremos quando magistrados e promotores se engalfinham para ver quem consegue criar mais penduricalhos no contracheque de pagamento, enquanto a enfermagem é vista e tratada como ‘despesa’ no orçamento público?
“É importante sermos leves, porque em todo esse horror há também alegria” (Susan Sontag, Assim vivemos agora).

Lucas Gabriel Pereira, advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).


