Meus caros leitores, ao longo do tempo assistimos a positiva evolução do conceito de saúde, inicialmente muito determinística pela simples ausência de doenças, depois lapidada pela Organização Mundial de Saúde como estado de completo bem-estar físico, mental e social, e posteriormente com a inclusão da espiritualidade como um elemento essencial para a qualidade de vida e o desenvolvimento integral do ser humano.
Espiritualidade deriva do latim “spiritus”, que significa elevação, transcendência. É a dimensão peculiar de todo ser humano que o impulsiona na tentativa de dar sentido e resposta aos aspectos fundamentais da vida. Indica como cada individuo encara sua existência, determina seu propósito, e por conseguinte, influencia sua visão particular do que é saúde, como reage a notícia de uma doença que o acomete, como adere aos tratamentos, aspectos relevantes na abordagem e monitoramento pelas equipes de saúde.
Vale a pena deixar claro que não estamos falando aqui de religião, que é o exercício de fé de um conjunto de pessoas, com rituais, dogmas e práticas de uma comunidade. A espiritualidade tem natureza intima, sem precisar de instituições.
Este entendimento mais abrangente do ser humano e a desconstrução paulatina de uma dicotomia histórica entre ciência e fé vem produzindo uma série de trabalhos científicos que apontam benefícios da espiritualidade como redução de sintomas de depressão, ansiedade e estresse, melhora da qualidade do sono e da resiliência emocional, aumento da felicidade, melhor enfrentamento de questões adversas e um sentido maior para a vida e o sofrimento, impactando em sucessos terapêuticos em comparação com outros grupos.
Nós médicos queremos compreender mais a fundo porque aqueles casos que a ciência sinalizava para um desfecho ruim, evoluiu para a cura ou para uma ampliação relevante do tempo de vida do paciente. Certamente você conhece um caso de alguém que estava “desenganado” e a história teve outro rumo.
Em 2025 tivemos a felicidade de assistir a criação da Comissão de Saúde e Espiritualidade pelo Conselho Federal de Medicina. Novos debates e trabalhos virão, que as práticas médicas possam incorporar cada vez mais a espiritualidade, com os profissionais de saúde cada vez mais acolhedores das necessidades de nossos pacientes e construindo junto com eles o melhor curso para suas vidas.

Dr Paulo Affonso
Medico Executivo de Saúde
@dr pauloaffonso
