#PatrimônioCultural

Clima tenso nos bastidores da corrida eleitoral de 1992, nos EUA. De um lado, George H. Walker Bush, dos Republicanos; doutro, Bill Clinton, dos Democratas – aquele do escândalo sexual com a estagiária Monica Lewinsky, na Casa Branca; mais recentemente, nos arquivos Epstein.
O clima eleitoral desperta as pulsões – de vida e de morte; de cancelamento, idem. Quem já participou de uma campanha eleitoral – em qualquer nível da federação – tem a noção mínima dos desafios/custos – financeiro e psicológico dentre eles – da empreitada. Que dizer em países de dimensão continental como EUA e Brasil? Da definição da estratégia eleitoral ao orçamento dos custos de logística da campanha etc. Eis que o estrategista de Clinton dá um salto em direção aos colegas bradando: “É a economia, estúpido” (James Carville). Foi com esse bordão que James Carville mudou o rumo da estratégia eleitoral de Bill Clinton em 1992, sufragando-o nas urnas. “É a economia, estúpido!”
Por que não transplantar esse jargão para nossa realidade, para enfrentar outro problema que aos poucos vem gangrenando a língua portuguesa: patrimônio cultural comum do brasileiro. “É a língua-mãe, estúpido!” E agora, quem irá defender nossa língua portuguesa, ante o uso recorrente de estrangeirismos diuturnos? Ou seriam apenas desvios pontuais sem interesse ideológico?
Estima-se que no Brasil haja em torno de 250 línguas. Dentre elas, a principal: a língua portuguesa, vide CRFB/88: “art. 13 – A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. Idem, art. 192 do CPC/2015. Também protegida no Inventário Nacional da Diversidade Linguística, Decreto n. 7.387, de 09 de dezembro de 2010, por sua “relevância para a memória, a história e a identidade dos grupos que compõem a sociedade brasileira” (art. 2º).
A língua é primeira trincheira de defesa da soberania nacional. Soberania cultural. A cultura é a identidade – heterogênea – da nossa gente. Proteger. Vigiar. Cuidar. Guardar. Os culturalistas estão sempre à espreita para atacar nossa língua enquanto rotulam suas razões calcadas na última moda de NY, de Paris, etc.
Dito isso, o que explica os estrangeirismos invasivos na nossa cultura, principalmente quando produzido por órgãos da imprensa que trabalham sob permissão do Estado? E o que dizer quando veiculado por identitários “do bem”, pseudo progressistas? E quando proferidos por Secretarias de Cultura, como no caso da criação do programa de visitação à bens históricos denominado Free Walking Tour?
Alvíssaras à parte, é de bom alvitre o ingresso pelo Ministério Público Federal nesse ringue, com o ajuizamento pelo MPF da ação de Indenização por Danos Morais contra a Rede Globo, no valor de R$ 10 milhões, na Justiça Federal. No caso, o dano pleiteado se dá pela forma incorreta de forma reiterada da palavra ‘recorde’ – com ênfase na proparoxítona “Ré” ao invés da paroxítona “Cor” – silaba tônica ‘cor’. – A Globo não perde a oportunidade de se ajoelhar ao Tio Sam, não?

Lucas Gabriel Pereira

Advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com Deficiência da 12º Subseção da OAB/SP (2019/2021).