Abrir a casa e o coração: os desafios do primeiro acolhimento familiar

O primeiro acolhimento dentro do Família Acolhedora, desenvolvido pela Casa da Criança e do Adolescente Anélio Zanuchi, costuma ser marcado por uma mistura intensa de expectativas, receios e descobertas. Foi exatamente assim para o casal Thaís Fernanda Pompeu Dusso, professora de 37 anos, e Bruno Cezar Dusso, fotógrafo da mesma idade, moradores de Valinhos. Pais de Elisa, de 10 anos, eles decidiram abrir as portas de casa e do coração para acolher, pela primeira vez, um bebê de apenas cinco meses, experiência que tem transformado a rotina e a forma de enxergar o cuidado e o afeto.

A decisão não foi imediata. Inicialmente, o casal pensava em adoção, motivado também pelo desejo da filha de ter um irmão. Chegaram a reunir documentação, mas desistiram do processo. O interesse pelo acolhimento familiar surgiu após conhecerem outro casal já participante do serviço, que os incentivou a buscar mais informações. Ainda assim, quando receberam a ligação para o primeiro acolhimento, o medo falou mais alto. A proposta de receber um bebê contrariava a ideia inicial da família, que pensava em acolher uma criança mais velha. “Como começar tudo de novo?”, questionavam, diante de uma rotina já estruturada.

A decisão final veio após uma conversa em família, envolvendo também a pequena Elisa. Juntos, optaram por aceitar o desafio. Há cerca de 15 dias, o bebê L., que completou seis meses logo após chegar, passou a fazer parte da rotina da casa. Segundo Thaís, o período tem sido um “desafio prazeroso”. Entre adaptações e descobertas, a convivência com o bebê trouxe uma nova dinâmica ao lar, marcada por aprendizados diários e pela construção de vínculos, ainda que temporários.

A experiência vivida pela família reflete um cenário comum entre os participantes do programa, conforme explica a coordenadora do Serviço de Acolhimento Familiar da Casa da Criança, Camila Forster. Segundo ela, o primeiro acolhimento é um momento especialmente delicado e intenso. “Há uma mistura muito grande de sentimentos, de uma expectativa, do desejo de acolher e de um medo de não dar certo”, afirma. De acordo com a coordenadora, mesmo após passarem por todo o processo de formação, é natural que surjam dúvidas sobre a própria capacidade de lidar com as demandas da criança. “As famílias se questionam se vão dar conta, se vão conseguir entender e acolher essa criança”, destaca.

Camila ressalta que, diante desse cenário, o acompanhamento próximo da equipe técnica é fundamental. “É muito importante que tenha um diálogo muito próximo com a equipe, porque é nesse momento que a criança e a família acolhedora estabelecem vínculos”, explica. Segundo ela, profissionais do serviço social e psicologia atuam de forma contínua, oferecendo orientação, escuta e suporte às famílias, tanto para lidar com as inseguranças quanto para fortalecer o acolhimento. “É um momento delicado para a criança, que também está vivendo um trauma, e para a família, que assume a responsabilidade de oferecer afeto e sustentar essa angústia”, completa.

Apesar dos medos, a coordenadora destaca que o acolhimento também é marcado por sentimentos positivos e transformadores. “É comum ouvirmos que, assim que a criança chega, as famílias já a amam”, afirma. Esse equilíbrio entre insegurança e afeto também é vivido por Thaís e Bruno, que, mesmo sem definir planos futuros, reconhecem o impacto da experiência. Para eles, “acolher é compreender que o papel da família não é substituir, mas somar, oferecendo cuidado, proteção e amor enquanto necessário.”

Um dos maiores receios do casal, compartilhado por muitas famílias acolhedoras, é o momento do desacolhimento. A despedida, inevitável, ainda é uma incógnita, mas já é encarada com mais serenidade após ouvirem conselhos de quem já viveu a experiência. “Hoje vocês desacolhem e uma criança vai embora ser feliz para que outra venha”, foi a orientação recebida, que ajudou a ressignificar o processo.

Sem definir ainda planos para novos acolhimentos, o casal afirma que a experiência tem sido transformadora e deixa um recado a outras famílias interessadas: buscar informação e conhecer de perto o serviço pode ser o primeiro passo para uma jornada marcante. “Ser uma família acolhedora é abrir mais do que a porta de casa, é abrir o coração”, resume Thaís, destacando que, mesmo por um tempo limitado, o impacto na vida da criança e da própria família é profundo e duradouro.

Seja uma Família AcolhedoraO Serviço de Acolhimento Familiar, desenvolvido pela Casa da Criança e do Adolescente Anélio Zanuchi, em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Habitação, convida novas famílias a participarem dessa iniciativa. Os interessados podem obter mais informações e agendar a participação nos encontros pelo e-mail familiaccava@gmail.com, pelo telefone (19) 3829-3410, pelo WhatsApp (19) 98367-0113 ou pelo site www.casadacriancaedoadolescente.org.br.