Nacionalistas x liberais

Dois companheiros entram na taverna. O de cabelo grisalho registra um sorriso iracundio inescondível; enquanto o calvo se destacava por sua voz passional de orador nato; em comum, ambos tinham o sonho de transformar o Brasil. Aprenderam no “Manifesto Comunista”, que a realidade posta – pelos gananciosos – poderia ser transformada; para tanto, precisavam de um projeto. Projeto!

Ao entrar se deparam assentado na mesa central um cordeiro “barbudo” domesticado por Golbery do Couto Silva – general. Sua função: ser o catalisador das vozes das esquerdas; sufocar e drenar todas as possibilidades de permitir que o ex exilado recém desembarcado de terras lusitanas alcançasse a cadeira-mor do Planalto Central. À direita, ao lado do cordeiro apascentado pelos financiamentos da Fundação Ford/CIA à CUT, encontrava-se um liberal-social de tradição sociológica uspiana. Sua missão segundo discurso no Senado: sepultar o espólio do pres. Getúlio Vargas.

Os representantes da mesa central davam uma festa à parte na taverna. Trilha sonora: Susanna Stivalli cantando Chico Buarque (jazz italiano). Comensais de caviar, camarão, queijo brie etc., e, claro, não podia faltar aquele toque nordestino, sem a presença de moqueca e carne de sol. Do popular chopp com
colarinho – nos moldes da tradição servida pela choperia Pinguim de Ribeirão Preto – ao Château Lafite Rothschild e do elegante Chablis, vinho branco da Borgonha. Entre os sussurros dos convivas, relatos de embaixadores europeus presentes, reclamavam da ausência de vinho Gewürztraminer alemão; que o calor dos trópicos pedia esse item ao cardápio. Esses homens de negócios dispostos a “investir” no Brasil, bruniam embargos auriculares que o velho precisava padecer, para o novo nascer. Que a CLT e o 13º salário (Vargas/Jango) eram empecilhos para a superexploração pelos arautos do capitalismo.
Blandície geral o clima no petit comité à mesa central. Decidiam-se de privatizações ao futuro do trabalho no Brasil, tudo para o bem geral do povo. Para tanto, havia uma pedra no meio do caminho. Por que não, duas pedras?

Escalaram Golbery para tal desiderato: castrar as forças da dupla que ousou transformar a realidade socioeducacional do Rio de Janeiro, responsáveis pelo CIEPS (Centros Integrados de Educação Pública). Precisavam impedir que a iracundia santa do educador, antropólogo, ex Ministro de Jango, alçasse o Palácio do Guanabara. No páreo: Moreira Franco (PMDB) – também conhecido como “gato angorá” – e Fernando Gabeira (PT). Placar final: 49,35% x 35,88%. Por 832.499 (oitocentos e trinta e dois mil e quatrocentos e noventa nove) votos, venceu o candidato apoiado pelos beatos da Fundação Roberto Marinho, com apoio do PT. O bon-vivant aprendeu como poucos dividir para conquistar. Se alguém se
queixar, culpe à direita; construa um inimigo; finja estar ao lado “da soberania nacional”; enquanto isso, envie emissários em off para negociar “terras raras” e “big data center” com o Departamento de Estado dos EUA.

O tempo passou. A cena se repetiu. Não mais como tragédia, mas como farsa. Nesse interstício, assistimos o legado do presidente responsável pela construção da identidade nacional. Exemplos:
Petrobrás, Eletrobrás, Vale, BNDE(S), CAPES; no trabalho, a CLT; no bem-estar, o sistema S (SESI, SENAI, SESC, SENAC e SEBRAE); vimos também que nenhum sucessor da cadeira ao Planalto, teve à ousadia e a coragem cívica de convocar às massas para ir às ruas defender um amplo programa nos moldes
das “Reformas de Base”.

Lucas Gabriel Pereira
Advogado, especialista em “Direito Municipal – ética e efetivação em direitos fundamentais” pela FDRP (USP/Ribeirão); presidente do Conppac – Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (2022/2024, 2024/2026); presidente da Comissão das Pessoas com
Deficiência da 12º Subseção da OAB/ SP (2019/2021)